COUTINHO, Carlos Nelson (pseudónimos: Guilherme Marques, Norberto Teles, Josimar Teixeira). (Itabuna, Brasil, 28/06/1943 – Rio de Janeiro, Brasil, 20/09/2012).
Filósofo, tradutor e professor, Carlos Nelson Coutinho destacou-se pela produção voltada ao debate teórico marxista e à estética e pela introdução de autores como György Lukács e Antonio Gramsci à cultura de esquerda.
Filósofo, traductor y profesor, Carlos Nelson Coutinho destacó por su obra centrada en el debate teórico marxista y en la estética, así como por la introducción de autores como György Lukács y Antonio Gramsci en la cultura de izquierdas. profesor, Carlos Nelson Coutinho destacó por su obra centrada en el debate teórico marxista y en la estética, así como por la introducción de autores como György Lukács y Antonio Gramsci en la cultura de izquierdas.
Carlos Nelson Coutinho nasceu em Itabuna, uma cidade no polo cacaueiro no sul da Bahia, em 28 de junho de 1943. Sua família, com raízes na colonização portuguesa, era de tradicionais proprietários de terras. Seu pai, Nathan Coutinho do Rosário (1911-1991), era advogado, poeta e político. Foi deputado estadual por três mandatos pela União Democrática Nacional (UDN), chegando a presidir a Assembleia Legislativa da Bahia. Além disso, foi amigo e aliado de Juracy Magalhães, governador do estado e liderança política. Nathan renunciou em 1959 ao cargo de deputado para se tornar conselheiro do Tribunal de Contas do Estado, chegando a ser presidente da instituição em 1963. Casado com Elza de Souza Coutinho, teve dois filhos: Carlos Nelson e Sônia. A família mudou-se para Salvador, onde Carlos Nelson passou a maior parte de sua infância e o início de sua vida adulta. A vida na capital abriu novas possibilidades para o jovem Coutinho. Foi na biblioteca de seu pai que teve o primeiro contato com o marxismo, lendo o Manifesto do Partido Comunista de Karl Marx e Friedrich Engels e Do socialismo utópico ao socialismo científico do segundo.
A vida de Coutinho foi fundamentalmente familiar até seu ingresso no Colégio Estadual da Bahia, conhecido como “Central”, no final da década de 1950. Localizado na Praça Carneiro Ribeiro, o colégio era frequentado por jovens das classes média e alta que se preparavam para o ensino superior, o que permitiu a Coutinho expandir significativamente seu círculo de amizades e interações. Para se ter uma dimensão da relevância desse espaço, algumas pessoas que também frequentaram a instituição foram Antônio Carlos Magalhães, Carlos Marighella, Cid José Teixeira Cavalcante, Jacob Gorender, José Júlio de Calasans Neto, Luiz Alberto Moniz Bandeira, Maurício Grabois, Raimundo de Oliveira Borges e Waly Salomão. Trata-se de jovens e futuros poetas, intelectuais, políticos e militantes que transitaram pelos mesmos corredores.
Uma vinculação decisiva que Coutinho teve naquele espaço foi com o seu professor de História Paulo Fernando de Moraes Farias, historiador formado pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e pesquisador do Centro de Estudos Afro-orientais (CEAO), coordenado pelo exilado português Agostinho da Silva e depois pelo geógrafo Waldir Freitas Oliveira. Farias cultivava várias ideias de esquerda, sendo próximo do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e um leitor extensivo. Farias foi a primeira pessoa a introduzir Coutinho aos textos de Antonio Gramsci, um autor que o professor descobrira durante uma viagem à Itália. Intrigado pelas referências em sala de aula, Coutinho procurou o professor para aprofundar a conversa. O que começou como um diálogo coletivo logo se tornou uma amizade. Por meio dessas indicações, o rapaz procurou as traduções francesas de Gramsci lançadas pela editora Les Éditions Sociales, vinculada ao Partido Comunista Francês (PCF).
Coutinho iniciou seus estudos em Direito na Universidade Federal da Bahia (UFBA) em 1961. A faculdade era um centro de intensa efervescência política e cultural. A Bahia vivia um momento rico de experimentações, que envolvia figuras como Caetano Veloso, Duda Machado, Gilberto Gil, Glauber Rocha, João Ubaldo Ribeiro, José Carlos Capinan, Roberto Pinho, Rogério Duarte e Waly Salomão. Figuras de destaque mais velhas contribuíram para a formação desse contexto, criando instituições, entre elas Eros Martim Gonçalves, Hans-Joachim Koellreutter, Lina Bo Bardi e Yanka Rudzka.
Coutinho juntou-se à base do PCB na faculdade, aos dezessete anos. As esquerdas tinham alguma presença no seu interior desde a década de 1930, quando Carlos Marighella coordenara a fundação de uma célula comunista dentro da Faculdade de Direito, na qual também atuaram Mário Alves e Jacob Gorender. Foi na UFBA que teve contato com a obra do húngaro György Lukács pela primeira vez. Em uma revista francesa na biblioteca da faculdade, encontrou uma resenha que fazia referências a História e consciência de classe, o que o levou a adquirir o livro durante uma viagem ao Rio de Janeiro.
Começou a trabalhar no jornal quase ao mesmo tempo. Sua irmã Sônia trabalhava no jornalismo e mediou sua inserção no meio. Publicara alguns textos n’A Palavra e no Jornal da Bahia, mas de forma espontânea. O cineasta Glauber Rocha, então um jovem que se dividia entre o jornalismo, o teatro e a Faculdade de Direito da UFBA, convidou Coutinho para trabalhar ao seu lado no Suplemento Artes e Letras do Diário de Notícias. Rocha tornou Coutinho seu assistente, sendo o seu primeiro emprego.
Dois anos depois de iniciar o curso de Direito, Coutinho decidiu mudar para a Filosofia, onde se formou em 1965. Publicou alguns artigos em revistas naquele momento, como a Ângulos, editada pelo Centro Acadêmico Ruy Barbosa (CARB) da faculdade de Direito, além de textos para a revista Afirmação e a Movimento, esta última da União Nacional dos Estudantes (UNE). A Ângulos é particularmente importante, pois compõe, junto da Cadernos da Bahia e da Mapa, o núcleo duro das publicações seriadas de Salvador. O acesso de Coutinho à revista foi facilitado por seu cunhado, o poeta Florisvaldo Mattos, que era redator da publicação. Coutinho também se aproximou do movimento estudantil, tornando-se um dos representantes do diretório acadêmico e se vinculando à UNE. Teve ainda uma breve aproximação com o núcleo do Centro Popular de Cultura (CPC).
Um de seus textos na revista Ângulos, “Problemática Atual da Dialética”, foi particularmente importante. Teve por seu meio contato com Leandro Konder, que se tornaria um de seus parceiros intelectuais e amigos mais próximos. Konder, que era do conselho diretivo da revista teórica do PCB, Estudos Sociais, ajudou Coutinho a publicar seu artigo, “Do existencialismo à dialética: a trajetória de Sartre”, em 1963. Era a primeira contribuição de Coutinho em uma revista do partido, esboçando uma aproximação que se ampliaria nos anos seguintes.
Em 1965, Coutinho mudou-se para o Rio de Janeiro e foi trabalhar no Tribunal de Contas daquela unidade da federação. Essa decisão foi tomada após responder a um Inquérito Policial Militar (IPM) em Salvador, que o investigava por suas conexões com o PCB e o movimento estudantil. Diversos jovens militantes ou simpatizantes da organização na cidade também foram inquiridos, entre eles Nemésio Salles e Paulo Fernando de Moraes Filho. O inquérito recomendou sua prisão preventiva. A iminência de ser encarcerado incitou sua mudança.
Coutinho estreitou no Rio de Janeiro seus vínculos com Leandro Konder e com a intelectualidade de esquerda carioca, colaborando em publicações como a revista Estudos Sociais e o semanário Folha da Semana. Nesse mesmo período, conheceu Ênio Silveira, proprietário das editoras Civilização Brasileira e Paz & Terra, figura central no circuito editorial progressista do país. Coutinho e Konder se aproximaram intensamente de Silveira, engajando-se em diversos de seus projetos editoriais e consolidando uma rede de interlocução política e cultural que marcaria de forma duradoura suas trajetórias.
Coutinho iniciou, dessa forma, uma longa e fecunda trajetória como tradutor, responsável por verter para o português mais de sessenta obras. Seu trabalho desempenhou papel decisivo na introdução e difusão, no Brasil, de autores centrais do pensamento crítico e das ciências humanas, entre os quais Adolfo Sánchez Vázquez, Agnes Heller, Antonio Gramsci, Claude Lévi-Strauss, Edgar Morin, György Lukács, Herbert Marcuse, Henri Lefebvre, Jürgen Habermas, Lucien Goldmann, Norberto Bobbio e Raymond Aron.
Coutinho lançou seu primeiro livro em 1967, Literatura e humanismo. Ensaios de crítica marxista, publicado pela editora Paz & Terra. A obra destacou-se sobretudo pelo ensaio dedicado ao escritor e militante comunista Graciliano Ramos, no qual articulava literatura e política a partir de uma perspectiva crítica marxista.
Coutinho e Konder iniciaram um ambicioso projeto intelectual naquele momento: a tradução e difusão das obras de Antonio Gramsci e György Lukács. Os rapazes estabeleceram uma rica correspondência com o intelectual húngaro, o que viabilizou um projeto editorial de grande envergadura com a editora Civilização Brasileira. Esse diálogo imprimiu características próprias às obras, já que a seleção dos textos era frequentemente discutida com Lukács. Nesse contexto, organizaram os volumes Ensaios sobre literatura (1965) e Marxismo e teoria da literatura (1968) de Lukács. Coutinho no mesmo período traduziu obras centrais como Introdução a uma estética marxista (1968) do intelectual húngaro, além de Concepção dialética da história (1966), Literatura e vida nacional (1968) e Os intelectuais e a organização da cultura (1968) de Gramsci. Todas essas obras foram publicadas pela Civilização Brasileira. Essa colaboração não apenas projetou Coutinho e Konder nacionalmente, mas também foi decisiva na recepção desses autores no Brasil.
Nesse mesmo período, Coutinho tornou-se colaborador assíduo de diferentes periódicos, com destaque para a Revista Civilização Brasileira, fundada por Ênio Silveira em 1965. O periódico rapidamente se consolidou como um dos principais polos de articulação da intelectualidade crítica ao regime militar, oferecendo um espaço de debate marcado por leituras heterodoxas do marxismo e por um distanciamento em relação à linha hegemônica do PCB. O projeto, entretanto, foi abruptamente interrompido em dezembro de 1968, quando a revista foi fechada após a promulgação do Ato Institucional nº 5 (AI-5). Paralelamente Coutinho também colaborou em outros veículos, publicando resenhas e artigos em periódicos como Visão e Movimento, de São Paulo, e Opinião, do Rio de Janeiro.
Embora não ocupasse uma posição de liderança no PCB, Coutinho destacou-se como uma das vozes mais influentes no campo cultural do partido. Passou a integrar o Comitê Cultural. A atuação do comitê se dava principalmente no diálogo com intelectuais e artistas, ainda que o PCB não contasse, à época, com uma política cultural estruturada ou diretrizes formais nesse campo. Além de Coutinho, participaram do Comitê Cultural Alex Viany, Alfredo de Freitas Dias Gomes, Antônio Carlos Peixoto, Ferreira Gullar, João das Neves, Joaquim Pedro de Andrade, Leandro Konder, Leon Hirszman, Luiz Werneck Vianna, Oduvaldo Vianna Filho e Pedro Celso Uchoa Cavalcanti.
A experiência de Coutinho no comitê e os debates nos anos 1960 culminaram em duas obras de destaque no início da década de 1970. A principal delas foi seu primeiro livro orgânico, O estruturalismo e a miséria da razão (1972), que marca o início de sua fase de maturidade. Coutinho chegou a tentar publicar a obra pela editora Brasiliense, enviando uma carta a Caio Prado Júnior, mas a negociação não foi bem-sucedida. A segunda obra foi uma coletânea, Realismo e antirrealismo na literatura brasileira (1974), em colaboração com Gilvan P. Ribeiro, José Paulo Netto, Leandro Konder e Luiz Sérgio Henriques. Ambos os livros foram lançados pela editora Paz & Terra. O primeiro livro alcançou repercussão internacional, sendo traduzido para o espanhol no México em 1973 por Jaime Labastida e publicado pela editora Era. Esses trabalhos, somados a Literatura e humanismo (1967), consolidaram os eixos centrais da reflexão de Coutinho naquele período: a estética, a teoria marxista e a interpretação da obra de Lukács e Gramsci.
A partir de 1974, com a intensificação da repressão militar contra o PCB, diversos militantes foram forçados a se exilar. Coutinho partiu para a Itália em março de 1976 e se estabeleceu na Universidade de Bolonha, onde frequentou algumas aulas. A escolha foi motivada pela admiração que nutria pelo Partido Comunista Italiano (PCI), pelo contato que tinha com a obra de Gramsci e por seu domínio da língua italiana. Inicialmente, Coutinho não conseguiu emprego e sobreviveu graças ao dinheiro enviado por seu pai. Durante o exílio, que incluiu passagens por Portugal e França, aprofundou seu contato com as concepções do chamado “eurocomunismo” e com as ideias de Palmiro Togliatti, antigo dirigente do PCI. Nesse período, chegou a organizar e traduzir um livro, Socialismo e democracia, com uma seleção de textos de Toglitatti, publicado no Brasil em 1980 pela editora Muro.
Coutinho trabalhou em Paris na redação do Voz Operária, jornal do PCB, escrevendo sob pseudônimos como Guilherme Marques, Norberto Teles e Josimar Teixeira. Paralelamente, colaborou com a revista teórica Études Brésiliennes e integrou a Assessoria do Comitê Central do partido, grupo de intelectuais encarregado de formular diretrizes políticas e estratégicas. A Assessoria era liderada por Armênio Guedes, membro do Comitê Central e diretor do Voz Operária, e reunia nomes como Aloísio Nunes Ferreira, Antônio Carlos Peixoto, Ivan Ribeiro Filho, Leandro Konder, Mauro Malin, Milton Temer e Zuleika Alambert. Em torno de Guedes consolidou-se um núcleo relativamente coeso, identificado com as teses do chamado eurocomunismo, que ficou conhecido dentro do PCB como o grupo dos “renovadores”. Essa experiência representou uma inflexão significativa no pensamento de Coutinho, que passou a investir cada vez mais na reflexão sobre a política, sem abandonar, contudo, suas preocupações estéticas e culturais.
Coutinho retornou do exílio em dezembro de 1978 e, a partir de então, engajou-se de forma decisiva nas disputas em torno dos rumos do PCB. Sua contribuição mais expressiva nesse período foi o ensaio “A democracia como valor universal”, publicado em 1979 na revista Encontros com a Civilização Brasileira. Coutinho questionava nesse texto a estratégia “etapista” que ainda orientava o partido, defendendo a superação da ideia de que a democracia seria apenas uma etapa transitória rumo ao socialismo. Em contraposição, afirmava que a democracia deveria ser assumida como valor central, permanente e inegociável do projeto socialista. Inspirado em Gramsci, propunha uma estratégia de guerra de posição, centrada na disputa pela hegemonia na sociedade civil e nos aparelhos de Estado, em lugar da perspectiva de uma revolução insurrecional.
O ensaio de Coutinho teve ampla repercussão, desencadeando intensos debates no interior da esquerda brasileira. Logo após sua publicação, surgiram críticas contundentes, como o folheto “Contra o revisionismo”, de Otávio Rodrigues, uma brochura divulgada entre os quadros do partido, e o artigo “A democracia como valor operário e popular”, de Adelmo Genro Filho, este último também publicado na Encontros com a Civilização Brasileira em 1979. A discussão, entretanto, não se limitou a essas respostas imediatas. Uma série de textos aprofundou a reflexão sobre a relação entre socialismo e democracia nos anos seguintes. Destacam-se entre eles “Notas sobre democracia e transição socialista” (1979) de José Paulo Netto; “A democracia e os comunistas no Brasil” (1980) de Leandro Konder; “Por que democracia?” (1984) de Francisco Weffort; e “As esquerdas e a democracia (1986)” de Marco Aurélio Garcia.
O ensaio “A democracia como valor universal” conheceu várias reedições e tornou-se referência nos debates da esquerda brasileira. Anos mais tarde, contudo, o próprio autor repensou suas formulações iniciais, propondo uma nuance conceitual significativa. Sugeriu em Intervenções: o marxismo na batalha das ideias substituir o termo “democracia” por “democratização” como valor universal. A mudança refletia sua preocupação em destacar o caráter processual, histórico e inacabado da luta democrática, compreendida não como um estado definitivo, mas como um movimento permanente de ampliação de direitos e participação.
De volta ao Brasil, Coutinho passou a ter participação cada vez mais expressiva na universidade, tornando-se professor do Instituto Bennet em 1984. Apenas dois anos depois, assumiu o cargo de professor titular da Escola de Serviço Social (ESS) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), função que exerceu até seu falecimento em 2012. Diferentemente das trajetórias acadêmicas mais tradicionais, Coutinho jamais concluiu o doutorado, iniciado na França sob a orientação de Michael Löwy, e pôde candidatar-se ao concurso apenas em razão do reconhecimento de “notório saber” pela instituição, obtendo o título de livre-docente ao ser aprovado. No âmbito universitário, desenvolveu projetos vinculados ao marxismo, entre eles o Núcleo de Estudos e Pesquisas Marxistas (Nepem), criado em 1990 em parceria com José Paulo Netto, antigo companheiro do PCB.
Esteve diretamente envolvido em diversos projetos editoriais de relevo na cultura de esquerda naquele momento. Colaborou com revistas como Encontros com a Civilização Brasileira, Hora, Escrita/Ensaio e, sobretudo, Temas de Ciências Humanas. Esta última, editada por Raul Mateos Castell, tornou-se um espaço privilegiado para o debate marxista no país, reunindo intelectuais como Celso Frederico Gildo Marçal Brandão, Ivan de Otero Ribeiro, José Chasin, José Paulo Netto, Leandro Konder, Luís Sérgio Henriques e Marco Aurélio Nogueira.
Paralelamente, Coutinho também colaborou com o semanário Voz da Unidade, de São Paulo, que se consolidou como um dos principais instrumentos de expressão política dos “renovadores” do PCB. O Conselho Editorial era composto por Armênio Guedes, Lindolfo Silva, Teodoro Melo e Gildo Marçal Brandão. A direção do jornal foi exercida inicialmente por Henrique Cordeiro, sendo posteriormente assumida por João Avelino, em 1983, e por Luís Carlos Azedo, em 1987. O Conselho expandiu-se consideravelmente logo no primeiro ano do projeto, passando a contar, além de Brandão, Guedes, Melo e Silva, com Antonio Gaspar, Cláudio Guedes, David Capistrano Filho, Emílio Bonfante Demaria, Francisco Almeida Leny-Lainetti, Luiz Arturo Obojes, Marco A. Coelho Filho, Marco Aurélio Nogueira, Marco Damian, Marco Moro, Nilton Horita, Pedro Célio, Rachel Soares, Reinaldo Belintani, S. Ramos, por São Paulo; e com Agenor de Andrade, Carlos Alberto Lopes, Carlos Nelson Coutinho; Ivan Ribeiro, Leandro Konder, Leo Lince, Luiz Werneck Vianna, Mauro Malin, Nemésio Salles, Rogério Marques Gomes e Teresa Ottoni, pelo Rio de Janeiro.
Apesar da intensidade e da visibilidade do debate, Coutinho e os “renovadores” acabaram derrotados nas disputas internas do PCB. Foram afastados do Voz da Unidade e sobrepujados no Congresso Nacional de 1983. A direção estadual de São Paulo, hegemonicamente composta por “renovadores”, foi destituída. Como consequência, vários de seus quadros se desligaram da legenda, entre eles o próprio Coutinho e Leandro Konder. Mais precisamente, Coutinho deixou o partido antes do desfecho da disputa. Após a perda do jornal, foi publicado em suas páginas um texto em defesa do decreto de lei marcial na Polônia em 1981, o qual estabeleceu uma junta militar no país e perseguiu opositores do regime. Em resposta, Coutinho escreveu um artigo na Folha de S. Paulo com críticas severas à posição do editorial. O episódio seria posteriormente rememorado pelo autor como um ponto decisivo em sua escolha de deixar o partido.
Uma parte significativa dos quadros egressos passou a se articular em torno da revista Presença, concebida por Davi Capistrano da Costa após sua destituição da direção estadual do partido em 1983. O periódico tornou-se um dos principais espaços de reflexão e interlocução dos dissidentes, funcionando como arena de experimentação política e teórica. O projeto, entretanto, manteve-se ativo por cerca de uma década, encerrarando suas atividades em meio ao progressivo enfraquecimento da corrente renovadora no cenário político-intelectual da esquerda brasileira.
Coutinho se filiou ao Partido dos Trabalhadores (PT) no final dos anos 1980, ao lado de Leandro Konder e Milton Temer. Mais tarde, ele e seus companheiros romperiam com o PT e participariam da fundação do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL). Ficariam na última legenda até o final da vida, inclusive sendo responsáveis pela sua revista teórica, Socialismo e Liberdade. Temer era editor da publicação ao lado de Sérgio Granja, enquanto Coutinho e Konder colaboravam com o periódico. O primeiro número da revista abria com uma entrevista de Coutinho para Granja. Debatiam sobre o seu ensaio “Democracia como valor universal” e sobre a situação do marxismo no século XXI. Coutinho resumia sua relação com os três partidos de forma bem-humorada, como um “casamento monogâmico” com o PCB, um namoro com “traições” com o PT e uma “amizade colorida” com o PSOL.
Após o rompimento com o PCB, Coutinho intensificou seu trabalho de tradução e estudo de Antonio Gramsci, um projeto que se tornaria uma marca de sua carreira. Apesar de já esboçar esse movimento em sua juventude, a partir desse momento a produção de Coutinho sobre o autor sardo aumentaria consideravelmente. Publicou Gramsci pela L&PM em 1981; Gramsci. Um estudo sobre seu pensamento político pela Campus em 1989, que veria outra edição pela Civilização Brasileira, revista e ampliada, em 1999; e De Rousseau a Gramsci. Ensaios de teoria política pela Boitempo em 2011. Organizou e traduziu Novas cartas de Gramsci (e algumas cartas de Piero Sraffa) e A questão meridional pela Paz e Terra em 1987, o primeiro junto de Marco Aurélio Nogueira; Gramsci e a América Latina pela Paz e Terra em 1988 junto de Marco Aurélio Nogueira; Ler Gramsci, entender a realidade pela Civilização Brasileira em 2003 junto de Andréa de Paula Teixeira, Luiz Sérgio Henriques e Nogueira; Escritos políticos de Gramsci pela Civilização Brasileira em 2004; e O leitor de Gramsci. Escritos escolhidos (1916-1935) pela Civilização Brasileira em 2011. Sua contribuição mais monumental foi a tradução, junto com Luiz Sérgio Henriques e Marco Aurélio Nogueira, dos seis volumes dos Cadernos do cárcere, publicados entre 1999 e 2002 pela Civilização Brasileira. Seus trabalhos a respeito de Gramsci foram reconhecidos internacionalmente, chegando mesmo a ser designado para a vice-presidência da International Gramsci Society.
Além das traduções, Coutinho também publicou A dualidade de poderes. Introdução à teoria marxista de Estado e revolução pela editora Brasiliense em 1985; Cultura e sociedade no Brasil. Ensaios sobre ideias e formas pela Oficina do Livro em 1990; Democracia e socialismo. Questões de princípio & contexto brasileiro pela Cortez/Autores Associados em 1992; Marxismo e política. A dualidade de poderes e outros ensaios pela Cortez em 1994; Contra a corrente. Ensaios sobre socialismo e democracia pela Cortez em 2000; Lukács, Proust e Kafka. Literatura e sociedade no século XX pela Civilização Brasileira em 2005 e Intervenções. O marxismo na batalha das ideias pela Cortez em 2006. As obras de Coutinho foram traduzidas e publicadas em diversos países, como México, Cuba, Itália, Chile e Estados Unidos. Também contribuiu com a tradução da edição brasileira dos doze volumes de História do Marxismo, organizado por Eric Hobsbawm, pela editora Paz & Terra.
Em seus últimos anos, Coutinho dedicou atenção especial a Lukács, organizando e traduzindo três importantes obras do marxista húngaro em parceria com José Paulo Netto: O jovem Marx e outros escritos de filosofia em 2007, Socialismo e democratização. Escritos políticos (1956-1971) em 2008, Arte e sociedade. Escritos estéticos (1932-1967) em 2009, todos publicados pela editora da UFRJ. Carlos Nelson Coutinho morreu no dia 20 de setembro de 2012, aos 69 anos.
Obra
No Brasil:
- Literatura e humanismo. Ensaios de crítica marxista, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1967.
- O estruturalismo e a miséria da razão, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1972.
- Realismo e Anti-realismo na literatura brasileira, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1974.
- A democracia como valor universal. Notas sobre a questão democrática no Brasil, São Paulo, Ciências Humanas, 1980.
- Gramsci, Porto Alegre, L&PM Editores, 1981.
- A dualidade de poderes. Introdução à teoria marxista de Estado e revolução, São Paulo, Brasiliense, 1985.
- Gramsci. Um estudo sobre seu pensamento político, Rio de Janeiro, Campus, 1989.
- Cultura e sociedade no Brasil. Ensaios sobre ideias e formas, Belo Horizonte, Oficina do Livro, 1990.
- Democracia e socialismo. Questões de princípio & contexto brasileiro, São Paulo, Cortez/Autores Associados, 1992.
- Marxismo e política. A dualidade de poderes e outros ensaios, São Paulo, Cortez, 1994.
- Gramsci. Um estudo sobre seu pensamento político, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1999.
- Contra a corrente. Ensaios sobre socialismo e democracia, São Paulo, Cortez, 2000.
- Lukács, Proust e Kafka. Literatura e sociedade no século XX, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2005.
- Intervenções. O marxismo na batalha das ideias, São Paulo, Cortez, 2006.
- De Rousseau a Gramsci. Ensaios de teoria política, São Paulo, Boitempo, 2011.
No exterior:
- El estructuralismo y la miseria de la razón, trad. de Jaime Labastida, Ciudad de México, Era, 1973.
- Introducción a Gramsci, trad. de Ana María Palos, Ciudad de México, Era, 1986.
- Literatura e ideología en Brasil. Tres ensayos de crítica marxista, trad. de Julia Calzadilla, Havana, Casa de las Américas, 1987.
- Il pensiero politico di Gramsci, trad. di Ambra Pelliccia, Milão, Edizioni Unicopli, 2006.
- Marxismo y política. La dualidad de poderes y otros ensayos, trad. de Paula Vidal Molina, Santiago do Chile, Lom Ediciones, 2011.
- Gramsci’s Political Thought, trad. Sette Câmara, Leiden/Boston, Brill/HM Book Series, 2012.
Traduções:
- Antonio Gramsci, Concepção dialética da história, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1966 [tradução do italiano, prefácio (em colaboração com L. Konder) e notas].
- Antonio Gramsci, Os intelectuais e a organização da cultura, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1968 [tradução do italiano e orelhas].
- Lucien Goldmann, Dialética e cultura, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1968 [tradução do francês (em colaboração com L. F. Cardoso e G. V. Konder)].
- György Lukács, Introdução a uma estética marxista, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1968 [tradução do italiano (em colobaração com L. Konder) e orelhas].
- Adolfo Sánchez Vázquez, As ideias estéticas de Marx, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1968 [tradução do espanhol].
- Herbert Marcuse, O fim da utopia, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1969 [tradução do italiano].
- Daniel Cornu, Karl Barth, teólogo da liberdade, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1971 [tradução do francês].
- Edgar Morin et al., Cultura e comunicação de massa, Rio de Janeiro, Fundação Getúlio Vargas, 1972 [tradução do francês].
- Agnes Heller, O cotidiano e a história, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1972 [tradução do espanhol e prefácio (em colaboração com L. Konder)].
- György Márkus, A teoria do conhecimento no jovem Marx, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1974 [tradução do italiano (em colaboração com R. di Piero) e prefácio].
- Malcolm S. Adiseshiah, O papel do homem no desenvolvimento, Rio de Janeiro, Fundação Getúlio Vargas, 1974 [tradução do francês].
- Janko Lavrin, Nietzsche. Uma introdução biográfica, Rio de Janeiro, Bloch, 1974 [tradução do inglês].
- Norman Mackenzie et al., Arte de ensinar e arte de aprender, Rio de Janeiro, Fundação Getúlio Vargas, 1974 [tradução do inglês].
- Oscar Cornblit et al., Organização e política da pesquisa social, Rio de Janeiro, Fundação Getúlio Vargas, 1975 [tradução do espanhol].
- Henri Lefebvre, Lógica formal, lógica dialética, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1975 [tradução do francês e orelhas].
- Simon Wiesenthal, A missão secreta de Cristóvão Colombo, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1975 [tradução do francês].
- Tulio Halperin Donghi, História da América Latina, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1975 [tradução do italiano].
- Jacques Valier; Pierre Salama, Uma introdução à economia política, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1975 [tradução do francês].
- Pierre Dockès, A internacional do capital, Rio de Janeiro, Zahar, 1976 [tradução do francês].
- André Gunder Frank, Acumulação mundial 1492-1789, Rio de Janeiro, Zahar, 1977 [tradução do inglês (em colaboração com H. Pólvora)].
- Stanley Hilton, O Brasil e as grandes potências mundiais, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1977 [tradução do inglês (em colaboração com S. Hilton)].
- Luciano Gruppi, O conceito de hegemonia em Gramsci, Rio de Janeiro, Graal, 1978 [tradução do italiano].
- Luciano Gruppi, O pensamento de Lenin, Rio de Janeiro. Graal, 1979 [tradução do italiano].
- György Lukács, Ontologia do ser social. A verdadeira e a falsa ontologia de Hegel, São Paulo, Ciências Humanas, 1979 [tradução do italiano e apresentação].
- György Lukács, Ontologia do ser social. Os princípios ontológicos fundamentais de Marx, São Paulo, Ciências Humanas, 1979 [tradução do italiano e apresentação].
- Pietro Ingrao, Crise e terceira via, São Paulo, Ciências Humanas, 1980 [tradução do italiano].
- José Paulo Netto (org.), Lukács, São Paulo, Ática, 1981 [tradução do italiano (em colaboração com J. P. Netto)].
- Massimo Canevacci (org.), Dialética da família, São Paulo, Brasiliense, 1981 [tradução do italiano].
- Massimo Canevacci (org.), Dialética do indivíduo, São Paulo, Brasiliense, 1981 [tradução do italiano].
- Claudio Napoleoni, Lições sobre o capítulo VI (inédito) de Marx, São Paulo, Ciências Humanas, 1981 [tradução do italiano].
- Claudio Napoleoni (org.), O futuro do capitalismo, Rio de Janeiro, Graal, 1982 [tradução do italiano].
- Pierre Grimal, A mitologia grega, São Paulo, Brasiliense, 1982 [tradução do francês].
- Catherine Sallès, Nos submundos da Antiguidade, São Paulo, Brasiliense, 1982 [tradução do francês].
- Norberto Bobbio, O conceito de sociedade civil, Rio de Janeiro, Graal, 1982 [tradução do italiano].
- Pier Paolo Pasolini, Caos. Crônicas políticas, São Paulo, Brasiliense, 1982 [tradução do italiano].
- Agnes Heller, Para mudar a vida, São Paulo, Brasiliense, 1982 [tradução do italiano].
- Agnes Heller, A filosofia radical, São Paulo, Brasiliense, 1983 [tradução do italiano].
- Evelyne Pisier -Kouchner; François Châtelet, As concepções políticas do século XX, Rio de Janeiro, Zahar, 1983 [tradução do francês (em colaboração com L. Konder)].
- Jürgen Habermas, Para a reconstrução do materialismo histórico, São Paulo, Brasiliense, 1983 [tradução do italiano].
- Gilberto Mathias; Pierre Salama, O Estado superdesenvolvido, São Paulo, Brasiliense, 1983 [tradução do francês].
- Cornelius Castoriadis, Diante da guerra, São Paulo, Brasiliense, 1983 [tradução do francês].
- Héctor Alimonda, Mariátegui: redescobrir a América, São Paulo, Brasiliense, 1983 [tradução do espanhol].
- Fernando Alegría, Allende: a paz pelo socialismo, São Paulo, Brasiliense, 1983 [tradução do espanhol].
- Marc Ferro, O Ocidente diante da revolução soviética, São Paulo, Brasiliense, 1983 [tradução do francês].
- Aline Rousselle, Pornéia: sexualidade e amor no mundo antigo, São Paulo, Brasiliense, 1984 [tradução do francês].
- Massimo Canevacci, Antropologia do cinema, São Paulo, Brasiliense, 1984 [tradução do italiano].
- Evelyne Pisier -Kouchner; François Châtelet; Olivier Duhamel, História das ideias políticas, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1985 [tradução do francês].
- Cornelius Castoriadis, A experiência do movimento operário, São Paulo, Brasiliense, 1985 [tradução do francês].
- Kamata Satoshi, Japão: a outra face do milagre, São Paulo, Brasiliense, 1985 [tradução do francês].
- Gabriele Invernizzi et al., Sandinistas, São Paulo, Brasiliense, 1985 [tradução do italiano].
- Albert O. Hirshmann, A economia como ciência moral e política, São Paulo, Brasiliense, 1986 [tradução do francês].
- Claude Lévi-Strauss, Minhas palavras, São Paulo, Brasiliense, 1986 [tradução do francês].
- Fréderic Mauro, Origens das desigualdades entre os povos da América, São Paulo, Brasiliense, 1986 [tradução do francês].
- Norberto Bobbio; Michelangelo Bovero, Sociedade e Estado na filosofia política moderna, São Paulo, Brasiliense, 1986 [tradução do italiano].
- Antonio Gramsci, Novas cartas de Gramsci (e algumas cartas de Piero Sraffa), São Paulo, Paz e Terra, 1987 [tradução do italiano (em colaboração com M. A. Nogueira)].
- Antonio Gramsci, A questão meridional, São Paulo, Paz e Terra, 1987 [tradução do italiano (em colaboração com M. A. Nogueira) e prefácio].
- Norberto Bobbio, Estudos sobre Hegel, São Paulo, Brasiliense/Unesp, 1989 [tradução do italiano (em colaboração com L. S. Henriques)].
- Norberto Bobbio, Thomas Hobbes, Rio de Janeiro, Campus, 1991 [tradução do italiano e orelhas].
- Norberto Bobbio, A era dos direitos, Rio de Janeiro, Campus, 1992 [tradução do italiano].
- Norberto Bobbio, Igualdade e liberdade, Rio de Janeiro, Ediouro, 1996 [tradução do italiano].
- Raymond Aron, De uma sagrada família a outra. Ensaios sobre os marxismos imaginários, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1970 [tradução do francês e apresentação, sob o pseudônimo de Luís Augusto do Rosário].
- Rosaria Micela, Antropologia e psicanálise, São Paulo, Brasiliense, 1984 [tradução do italiano, sem assinatura].
Cómo citar esta entrada: Castro, João Victor Lourenço De y Maldonado, Luccas Eduardo Castilho (2026), “Coutinho, Carlos Nelson”, en Diccionario biográfico de las izquierdas latinoamericanas. Disponible en https://diccionario.cedinci.org.
