CALVINO FILHO, José (São Paulo, Brasil, 22/10/1903 – Rio de Janeiro, Brasil, 24/6/1959).
Nascido no São Paulo, médico de formação, foi editor, articulista e militante do Partido Comunista do Brasil (PCB).
Filho de José Calvino, de origem portuguesa, e de Belmira da Silva, brasileira. Calvino Filho se formou em Medicina pela Universidade do Brasil (atual Universidade Federal do Rio de Janeiro) no ano de 1929, e teve destacada atuação no Instituto Manguinhos (atual Instituto Oswaldo Cruz). Mas sua atuação no Rio de Janeiro da época não se limitou a sua formação profissional, sendo também um reconhecido editor de livros e articulista. Sua editora, Calvino Filho Editor, fundada em 1929, editou uma série de obras de cunho político, com destaque para a literatura marxista, socialista, de discussão acerca do fascismo, além de livros de direito, medicina, didáticos e romances.
A editora lançou novos títulos até 1932 e funcionou até 1934, quando passou a sofrer com a repressão do governo Getúlio Vargas sobre a literatura marxista. Mesmo após esse período, em 1937, Calvino Filho enfrentou um processo fruto de uma denúncia encaminhada a Delegacia Especial de Segurança Política e Social (DESPS) chefiada por Filinto Muller, que determinou a apreensão de 20 mil exemplares de 57 títulos diferentes de sua antiga editora. O depósito da mesma passou a ser vigiado a partir de então, até o arquivamento do processo em 1938.
O editor também teve presença marcante em inúmeros artigos nos jornais Diário da Noite, de propriedade de Assis Chateaubriand, e Tribuna Popular, órgão de imprensa do PCB, nos quais discutia as conjunturas políticas da época e defendia suas publicações, principalmente aquelas ligadas à experiência soviética dos ataques de setores conservadores. Calvino Filho era figura sempre presente nos círculos de intelectuais da época, tendo sido também organizador do Congresso de Editores e Autores em 1933, ao lado de figuras como Humberto de Campos, Herbert Moses e Octalles Marcondes.
Já nos anos 1940, no contexto da Segunda Guerra Mundial e da entrada do Brasil no conflito ao lado dos Aliados, José Calvino Filho reorganiza sua editora, agora sob o nome de Editorial Calvino Limitada. Esse foi o período de maior destaque do editor, tanto com a sua editora quanto no seu trabalho de articulista, por meio de inúmeros artigos em defesa da democracia e contra o nazifascismo, além dos embates em defesa de suas publicações sobre a realidade soviética, com destaque para os livros Missão em Moscou de Joseph Davies, Stalin de Emil Ludwig e O Poder Soviético do Reverendo Hewlett Johnson, o Deão de Canterbury.
A Editorial Calvino Limitada entra em atividade em 1942, em um primeiro momento edita livros de caráter não-político, com coleções sobre saúde, biologia e com biografias. São destaque nesse período duas coleções: Os Amorosos da Humanidade e Coleção de Cultura Sexual. Com o passar dos anos e com o paulatino abrandamento da ditadura do Estado Novo, Calvino passa a editar livros de caráter antifascista e sobre a realidade soviética em um primeiro momento, e logo em seguida, livros ligados a teoria marxista com destaque para os clássicos de Marx, Engels, Lenin e Stalin, e a doutrina marxista-leninista soviética. Vale ressaltar que esse processo esteve intimamente ligado com a reorganização do PCB, que tem como marco a Conferência da Mantiqueira de 1943. Não é à toa que é justamente a partir desse ano que a Editorial Calvino passa a aumentar a sua atividade editorial, se revelando como editora ligada ao PCB a partir de 1945, com a volta do partido a legalidade.
Vale ressaltar que essa ligação de José Calvino Filho e sua editora com o PCB fica bastante evidente nos inúmeros prefácios que o editor escreve para as obras lançadas por ele, nesse momento ressaltando a linha adotada pelos comunistas mundo afora de União Nacional contra o nazifascismo, o que no Brasil significava a organização de todas as forças políticas democráticas em torno do governo Vargas. Calvino Filho chegou, inclusive, a enviar cartas para o gabinete da presidência reclamando de ações de censura do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) contra suas edições endereçadas direito ao presidente. Essa linha do partido será mantida mesmo após o fim da Guerra e do Estado Novo, com o PCB apostando na via parlamentar e reformista, tendo expressiva votação para seu candidato a presidente, Yedo Fiúza, e elegendo o senador mais votado da história até aquele momento, Luís Carlos Prestes.
Se destacam nesse período de atividade da Editorial Calvino as coleções A Verdade Sobre a Rússia, Coleção de Estudos Sociais, Luta Pela Liberdade e Os Grandes Homens da Vitória, com livros como A Rússia na Paz e na Guerra de Anna Louise Strong, História do Socialismo e das Lutas Sociais de Max Beer, A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado de Friederich Engels, Manifesto Comunista de Marx e Engels, Duas Táticas da Social Democracia na Revolução Operária de Lenin, Prestes (O Herói, o Mito e o Homem) de Abguar Bastos, Os Dez Dias que Abalaram o Mundo de John Reed, entre outros.
Vale destacar ainda o periódico Divulgação Marxista, dirigido por Calvino Filho e S. O. Hersen, como o nome sugere, a revista focava o seu conteúdo em artigos dos teóricos do marxismo-leninismo como Lenin e Stalin, em textos sobre a realidade soviética e a história do socialismo, comentários acerca da obra de Marx e críticas a economia capitalista, com tiragem de duas edições por mês. Além de textos do próprio Calvino Filho, a revista, que circulou até 1947, trouxe contribuições de diversos autores soviéticos, e na sua edição de número 12 um artigo de Caio Prado Jr. sobre a exploração de jazidas no Brasil Colonial. O editor ainda foi responsável pelo jornal Mundo Médico, que circulou nesse mesmo período.
Em 1947, a editora já apresenta sinais de dificuldades para continuar atuando, a conjuntura da Guerra Fria e o anticomunismo declarado do governo Dutra leva a cassação de todos os parlamentares eleitos pelo PCB e coloca mais uma vez o partido na ilegalidade, o que claramente dificulta a continuidade do trabalho de editor de Calvino Filho. O último livro da sua editora é lançado em 1948, Zé Brasil, de Monteiro Lobato. A Editorial Calvino editou em torno de 90 títulos, chegando, segundo seu editor, a quase 500 mil exemplares, que circularam, ao menos, por oito estados brasileiros (Rio de Janeiro, São Paulo, Espírito Santo, Minas Gerais, Mato Grosso, Piauí, Maranhão e Amazonas) e também alcançaram terras internacionais, a exemplo de Portugal.
A partir de 1948, com o PCB na ilegalidade e sem a sua editora, José Calvino Filho precisou enveredar por outros caminhos para se manter. O fato de fazer parte de importantes círculos intelectuais da época como o da Associação Brasileira de Escritores (ABDE) e da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) o auxiliaram na sua nova empreitada: corretor de Artes Plásticas. Na Galeria Calvino era possível encontrar obras de artistas como Cândido Portinari, José Pancetti, Quirino Campofiorito, Sinhá D’Amora, Djanira Motta, entre outros. Apesar da nova atividade, Calvino continua a atuar como livreiro, aceitando encomendas de livros nacionais e internacionais.
Nos anos 1950, foi membro do Movimento Brasileiro dos Partidários da Paz, uma frente ampla da qual participavam os comunistas e que lutava pelo fim da Guerra da Coréia. Participa em 1954 do Primeiro Congresso Nacional de Intelectuais, fazendo parte do grupo do Distrito Federal que contava com nomes como Astrojildo Pereira, Alina Paim, Dias Gomes, Ênio Silveira, Jorge Amado, Oscar Niemeyer, entre outros. Em 1956, aderiu a Comissão Nacional de Anistia que lutava pelo fim da perseguição aos comunistas no contexto da Guerra Fria, no mesmo dia que o radialista Mário Lago, sendo destaque no jornal Diário da Noite pela última vez.
Em 1957, ainda marca presença no jornal Imprensa Popular, do PCB, contribuindo para a “Tribuna de Debates”, debatendo questões teóricas e de organização partidária com duas figuras proeminentes do PCB: Agildo Barata e Carlos Marighella.
José Calvino Filho faleceu no Rio de Janeiro em 24 de junho de 1959, sozinho e sem deixar herdeiros, após uma vida dedicada aos livros e a intensa atividade nos meios intelectuais, unindo as duas frentes na sua militância comunista.
Obra
- “A Verdade Sobre a Rússia Através dos Livros da Editorial Calvino e as Acusações do Sr. Ary Maurell Lobo”, Diário da Noite, Rio de Janeiro, 23 de maio de 1944, p.3.
- “Carta Aberta ao Sr. Viriato Vargas”, Diário da Noite, 17 de março de 1945, p.2.
- “Carta a um burguês ‘progressista’”, em Divulgação Marxista, n.1, julho de 1946, p.5.
- “Como Baratear a Vida?”, Diário da Noite, Rio de Janeiro, 09 de dezembro de 1939, p.2.
- “Direito de Resposta (Contestando o Artigo do Padre Arlindo Vieira Publicano na “A Manhã” de Domingo)”, Diário da Noite, Rio de Janeiro, 2 de junho de 1943, p.3.
- “Estudemos o Marxismo”, Divulgação Marxista, n.3, agosto de 1946, p.48.
- “Grave Infração de Princípio”, Imprensa Popular, 08 de fevereiro de 1957. p.2.
- “Inteliguêntsia Marxista”, Imprensa Popular, 29 de janeiro de 1957. p.2.
- “Mentindo sobre a Rússia”, em Divulgação Marxista, n.1, julho de 1946, p.105.
- “Notas sobre o conceito Governo”, Divulgação Marxista, n.17/18, março de 1947, p.1.
- “O Livro é a Arma que o Gênio Humano Criou para Destruir a Mentira”. Diário da Noite, Rio de Janeiro, 28 de setembro de 1942. p.3.
- “O Poder Soviético do Deão de Canterbury e a Crítica Feita pelo Notável Integral-Católico Lúcio José dos Santos”, Diário da Noite, Rio de Janeiro, 5 de novembro de 1943, p.2.
- “Qual a Razão da Atitude de Prestes?”, Tribuna Popular, 23 de março de 1946, p.6.
- “Responde a Frei Mansueto do Editor Calvino Filho”, Diário da Noite, 16 de junho de 1944, p.3.
- José Calvino Filho, “’Stalin’, de Emil Ludwig, Não Foi Deturpado em sua Tradução”, Diário da Noite, 01 de outubro de 1943, p.5.
Cómo citar esta entrada: JUBERTE, Vinícius (2020), “Calvino Filho, José”, en Diccionario biográfico de las izquierdas latinoamericanas. Disponible en https://diccionario.cedinci.org